ENTREVISTA COM OS RESTAURADORES DO MUSEU DO PRADO

"'O triunfo da Morte', de Brueghel, necessitava de uma limpeza completa"

O Museu do Prado exibe novamente 'O Triunfo da Morte', de Pieter Brueghel, após uma importante restauração feita com a colaboração da Iberdrola, membro Protetor do Programa de Restauração do Museu do Prado. Conversamos com os verdadeiros protagonistas desse projeto de restauração.

Em 28 de maio de 2018, o Museu do Prado apresentou O triunfo da Morte, do pintor flamengo Pieter Brueghel, o Velho (1525-1569), depois de ter sido submetido a um dos processos de restauração mais importantes do último ano. É uma das cerca de 40 pinturas preservadas de Brueghel no mundo e, junto à obra O vinho do dia de São Martinho, é uma das duas que ficam na Espanha. Trata-se de um óleo sobre madeira de 117x162 centímetros que representa um tema habitual da época medieval: o inevitável triunfo da morte sobre as coisas mundanas, sobre ricos e pobres.

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María Antonia López de Asiaín e José de la Fuente, especialistas do Museu do Prado que participaram da restauração dessa relevante obra, explicam como enfrentaram o delicado trabalho de devolver a essência da obra O triunfo da Morte.

A nível técnico, quais são as principais características de O triunfo da Morte?

María Antonia López de Asiaín: Trata-se de uma composição complexa que junta o tumulto do primeiro plano com a profundidade da paisagem. A cena está perfeitamente estruturada com uma distribuição estratégica dos volumes, da massa de personagens, do vazio desolado da paisagem e do movimento dos exércitos. A técnica pictórica é de alta qualidade, com uma camada muito fina e de extrema nitidez e precisão nos detalhes.

José de la Fuente: Quanto ao suporte, O triunfo da Morte não se distingue dos restantes dos suportes flamengos. Trata-se de madeira de carvalho báltico, de corte radial. Foi feito com quatro painéis unidos pelas bordas e colados com cola animal. Originalmente, tinham quatro espigões internos em cada painel, que facilitavam o encaixe e nivelamento de cada uma das placas.

Quando vocês receberam esta importante obra no ateliê, em qual estado ela se encontrava?

M. A. L.: A imagem da pintura era escura e opaca, com uma apresentação turva. Seu estado era inadequado. Claramente, a obra necessitava de uma limpeza completa para recuperar sua nitidez, transparência e colorido. Apresentava algumas alterações de ação química em torno das juntas dos painéis, queimaduras etc., mas a principal causa da deterioração era um antigo restauro inadequado do suporte, que causou alguns danos à pintura.

J. F.: O estado do suporte parecia bom até que foi efetuada uma primeira limpeza. Então, se tornaram visíveis algumas fissuras no painel superior, que podem ser atribuídas unicamente a um acidente, por manuseio ou queda, no passado. As fissuras foram coladas, mas mal niveladas. Também ficou evidente a separação entre os diferentes painéis que compõem a madeira: tinham sido desmontados e seus cantos polidos para que tivesse um bom contato. Nessa operação se perdeu parte do suporte e da pintura, o que afetou as figuras pintadas na diagonal, onde se percebia que não estavam adequadas. O suporte foi reduzido até quase a metade e reforçado com uma retícula — o que é denominado tecnicamente de revestimento — excessivamente forte e rígida, o que bloqueava qualquer movimento natural da madeira.

Quais passos foram seguidos para restaurar a camada pictórica?

M. A. L.: O restauro pictórico foi desenvolvido em duas fases. A primeira focou na fixação da camada pictórica — especialmente levantada em torno das fissuras de suporte —, que foi acompanhada da eliminação de vernizes superficiais e da retirada das repinturas nas fendas para facilitar a restauração do suporte, efetuada em seguida por José de la Fuente. Na segunda fase, depois de concluída a restauração do suporte de madeira, foi completada a limpeza, momento em que descobrimos que alguns elementos tinham sido totalmente repintados. A qualidade e boa conservação da pintura permitiu fazer uma limpeza completa. A restauração foi concluída com uma estucagem cuidadosa para reduzir os desníveis das juntas e permitir uma reintegração dos painéis.

E para restaurar o suporte?

J. F.: Em primeiro lugar, foi retirado o revestimento que comprimia a madeira. O painel superior foi novamente separado e unido novamente, nivelando toda a zona de contato entre as madeiras. As fendas desse painel foram reabertas, coladas e niveladas por meio de diferentes métodos. Também foram equilibradas as zonas das uniões entre painéis que apresentavam ressaltos. Depois de consolidadas as juntas e as fendas, a madeira continuava muito frágil. Por isso, optamos por reforçar com um segundo suporte: um cilindro que fica colado ao suporte original de onde sai um parafuso de nylon. Agora, o quadro pode ser manuseado sem qualquer risco.

Uma das tarefas habituais do restauro atual é a eliminação de repinturas de intervenções anteriores. Como foi feito esse delicado processo sem danificar a pintura original?

M. A. L.: Nesse caso, a eliminação das repinturas foi delicada por conta de sua dureza frente à delicadeza do original. Foi feita com meios químicos e físicos, auxiliados por um bisturi, já que a pintura original não aguentaria solventes muito polares ou aquosos.

Cada mestre da pintura utiliza sua própria técnica. Uma das mais famosas é o sfumato, de Leonardo da Vinci. Quando se trata de restaurar uma obra, é utilizada a mesma técnica que o autor usou quando a pintou?

M. A. L.: Não, o restauro utiliza sua própria técnica e materiais, sempre reversíveis e que respeitem a obra original. O objetivo é conseguir, com técnicas de restauro específicas, um resultado estético semelhante ao do mestre.

A pintura de Brueghel é composta por uma riqueza de cenas que a tornam especialmente interessante aos olhos do espectador. Um restaurador se aproxima desse quadro com o mesmo entusiasmo?

M. A. L.: Como restauradora, percorri cada cena, a expressão de cada um dos personagens, de seus corpos entrelaçados, analisando cada detalhe e pincelada.

O objetivo é conseguir, com técnicas de restauro específicas, um resultado estético semelhante ao do mestre

Qual é o maior desafio que vocês enfrentaram nessa intervenção?

M. A. L.: Foi uma obra simples de compreender e abordar. A principal dificuldade foi resgatar, com respeito, uma camada pictórica tão fina e transparente.

J. F.: Não há dúvidas de que o maior desafio foi a reabertura, tanto das fendas quanto das uniões mal niveladas. Essa operação é complexa e envolve uma manobra muito perigosa. É preciso estar muito seguro para fazer um manuseio desse tipo.

Após o restauro, fica evidente que O triunfo da Morte recuperou tons azulados e uma potente luz e nitidez. Quais outras qualidades menos perceptíveis foram dadas à obra com o trabalho que vocês fizeram?

M. A. L.: A restauração não só recupera as cores originais, como também põe em evidência detalhes perdidos nas juntas de painéis que as restaurações anteriores fizeram. Agora é mais fácil compreender a cena, a profundidade e a disposição dos blocos de figuras. Foi restabelecida a complexidade de sua composição, a profundidade da paisagem e o avanço ordenado dos exércitos. O restauro deu visibilidade à técnica pictórica original.

A temática macabra e satírica dessa pintura de Brueghel fez com que essa intervenção tenha sido diferente de trabalhos anteriores?

M. A. L.: Sim, é uma temática dura, mas a grande beleza de sua apresentação pictórica elimina seu tom macabro. A obra simplesmente apresenta com naturalidade fatos humanos. Pode quase ser interpretada como uma história em quadrinhos do século XVI. É uma obra que permite meditar sobre a morte a partir de um ponto de vista racional e natural.

Vocês esperam que as novas tecnologias possam facilitar algum aspecto da profissão de restaurador no futuro?

M. A. L.: Claro. Nesses últimos anos, já avançamos com a ajuda de melhores análises técnicas, com o apoio de ferramentas que possibilitam melhores resultados com menos esforço — como microscópios — e, sobretudo, na pesquisa de novos géis e solventes mais respeitosos não só com a obra de arte, como também com o meio ambiente.

J. F.: O restauro do suporte sofreu uma evolução tão grande nos últimos anos que dificilmente um restaurador de 25 ou 30 anos atrás poderia imaginar e reconhecê-lo atualmente. Essa evolução ocorreu devido ao surgimento de novos materiais e aos avanços tecnológicos que envolvem os sistemas que estamos utilizando.

 O transporte da arte (*)

   

(*) Disponível na versão em espanhol.