DEFINIR O PAPEL DOS GASES 'RENOVÁVEIS'

O papel dos gases 'renováveis' na transição energética

O Acordo de Paris e os compromissos que a Europa está adquirindo em sua estratégia até 2050 visam uma sociedade neutra em carbono nesta data. Para tal, as fontes de energia deverão estar plenamente descarbonizadas, o que significa que não há lugar para os combustíveis fósseis sem tratamento.

Os gases renováveis: biogases, eletrogases e gases descarbonizados.#RRSSOs gases renováveis: biogases, eletrogases e gases descarbonizados.

Diante dessa situação, discute-se o papel dos chamados gases 'renováveis':

  • De origem orgânica (biogases). São obtidos a partir da decomposição de material orgânico como resíduos, lodos de depuradoras, biomassas, etc. Este gás tem grande potencial de utilização in situ como combustível (para geração de eletricidade e/ou usos térmicos locais), já que não se pode incorporar em grande escala as redes de gás natural. Atualmente, são os únicos gases realmente renováveis, com desenvolvimento comprovado e custos acessíveis, mas seu potencial é muito reduzido e seu uso é local, tornando-os uma alternativa apenas para certos nichos de mercado.
  • De origem elétrica renovável (eletrogases). Esta opção consiste em utilizar a eletricidade gerada por renováveis para fabricar hidrogênio (H2) mediante o processo de eletrólise. O H2 assim obtido se denomina "electroH2", H2 limpo ou H2 verde.
    • O "eletroH2" é utilizável diretamente em processos térmicos e para produção de eletricidade, mas as redes atuais de gás natural restringem seu transporte e uso posterior a uma concentração de aproximadamente 10% do gás natural. Concentrações superiores, ou um transporte unicamente de H2, requerem uma modificação substancial de todas as redes de gás e a adaptação das instalações de consumo.
    • A partir do "eletro H2", mediante incorporação de CO2, se obtém metano sintético ou "eletrometano", equivalente ao gás natural fóssil. Para que este gás seja neutro em carbono, requer que o CO2 incorporado em sua produção provenha da captação direta da atmosfera, que por sua vez se trata de uma tecnologia incipiente e muito custosa. Se o CO2 for originário de uma emissão prévia de outro processo, não se garantiria a neutralidade de emissões para a atmosfera e não se poderia se considerar o "eletrometano" um gás limpo.
  • De origem fóssil (gases descarbonizados). A partir de gás natural fóssil e mediante processos térmicos com uso de "captura e armazenamento de carbono" ou "captura e uso de carbono", se obtém gás descarbonizado (combustão) ou H2 azul (reforma com vapor de agua). Esses gases não podem ser considerados limpos porque em sua produção liberam emissões de CO2 (pelo menos 10% do carbono capturado). A viabilidade dessas opções depende do desenvolvimento técnico-comercial e acesso a sistemas de armazenamentos subterrâneos, redes para seu transporte, custos, aceitação social, etc.

Dado que a tecnologia para obtenção de gases limpos e descarbonizados é ainda muito incipiente e custosa, a principal atuação neste sentido deve centrar-se em projetos de P&D.

A competitividade dessas tecnologias dependerá de sua evolução tecnológica no futuro. Com as opções existentes, esses gases devem destinar-se unicamente àquelas aplicações onde não exista alternativa neutra em carbono (eletricidade renovável).