Entrevista com o surfista Garazi Sánchez

ENTREVISTA COM GARAZI SÁNCHEZ

"Se em uma sociedade a igualdade é real, é insustentável que no esporte as coisas não sejam assim"

#esportes #igualdade de gênero

Falar de Garazi Sánchez é mencionar uma das esportistas espanholas do momento. A surfista basca é bicampeã da Espanha e vice-campeã da Europa e os Jogos de Tóquio 2020 são para ela uma perspectiva muito próxima. Apesar de ela não se considerar uma referência, com suas conquistas ela conseguiu que muitas meninas deixem de ver o surfe como um esporte de homens e comecem a praticá-lo.

Garazi_Sanchez

Entrevista com Garazi Sánchez, vice-campeã da Europa (2017) e campeã da Espanha (2017 e 2018).

O surfe será um esporte olímpico em Tóquio 2020 e Garazi Sánchez sonha com estar presente nos jogos. Apesar disso, a surfista basca, recém saída de uma lesão, prefere ir passo a passo e saborear assim cada momento do esporte que ela ama. Nesta entrevista, além de abordar suas expectativas com os Jogos Olímpicos, ela fala sinceramente sobre o início de sua carreira, sobre a crescente - e necessária - igualdade entre homens e mulheres no esporte e sobre a importância do apoio de empresas como a Iberdrola.

Como nasceu a sua paixão pelo surfe? É mais do que um esporte?

Eu tive a sorte de que meus pais faziam caiaque-surfe e passavam todos os fins de semana do verão na praia. Eu e o meu irmão começamos brincando e, no final, tivemos vontade de saber como era realmente. Quando você começa alguma coisa e se diverte, não sente que está praticando um esporte. Eu pratiquei outros e acho que o surfe tem algo especial: tem gente que viaja 24 horas de avião para procurar uma onda. Para mim o surfe, definitivamente, é algo que eu curto e que me deu a oportunidade ou a desculpa para conhecer o mundo e me construir como pessoa.

Qual foi seu melhor momento numa prancha de surfe?

O melhor e o pior disso tudo é que quando você está em cima da prancha você se esquece de tudo. Eu estava já há algum tempo lesionada e tinha saudades do surfe. Ao voltar eu estava nas Maldivas, sentada em uma praia com alguns amigos, era disso que eu sentia falta. Essa paz de estar sentada vendo o mar.

O que significou para você o apoio da Iberdrola? Estes apoios são imprescindíveis para que as esportistas cheguem ao seu melhor nível?

Nos últimos anos houve uma revolução no esporte feminino e este tipo de iniciativa é um dos grandes impulsionadores. Obviamente as meninas estão treinando cada dia mais e o nível está subindo, mas muitas vezes precisamos desses grandes apoios para sair nos meios de comunicação, para que a roda comece a girar. Estou muito agradecida ao apoio da Iberdrola, que me permitiu fazer o circuito de surfe.

O que você acha de iniciativas como o Iberdrola Surfing Day?

Muitas vezes, nós que estamos competindo estamos tão dentro da competição que achamos que tudo está resolvido. No Iberdrola Surfing Day os profissionais se uniram com gente que está descobrindo o surfe com cara de surpresa e de admiração. É algo muito bonito.

É importante que as empresas apoiem o esporte e, mais especificamente, que façam isto para promover a igualdade entre homens e mulheres?

Sempre considerei que o esporte é um reflexo da sociedade. Afinal, quando isto vai sendo conseguido, é um reflexo de que nas empresas está acontecendo mudanças, a nível político está havendo mudanças... Acho que é insustentável que numa sociedade onde a igualdade é real, que o esporte não o seja. Por essa razão, o fato do esporte feminino crescer é uma boa notícia para todos. Tomara que no dia de amanhã as meninas não tenham que pensar que ser surfista e mulher é algo estranho.

Tomara que no dia de amanhã as meninas não tenham que pensar que ser surfista e mulher é algo estranho

Cada vez há mais mulheres que começam a praticar surfe. Por que aconteceu essa mudança?

Eu, quando comecei, faz 20 anos, ia com meu irmão mais velho e seus amigos. E, para começar, você tinha que romper barreiras. Tinha gente que dizia que era uma cosia para homens. Inclusive o material: não havia roupa de surfe de mulher. Agora há mais escolas e mais facilidades, e esses conflitos que eu e as anteriores mulheres tínhamos deixaram de existir. Começo a sorrir, ao estar surfando, só de ver aqui um montão de meninas vindo à praia, depois de trabalhar, para tomar um banho e curtir o esporte.

Você acha que seu sucesso pode servir de referência para aquelas meninas jovens que comecem a praticá-lo?

Chamar isto de sucesso parece um pouco exagerado... Mas sim, o fato de eu poder viver da minha paixão, que é o surfe, alguns anos atrás era impensável. É importante que todas tenhamos referências. Se eu vejo que uma mulher é diretora de uma empresa, vejo que eu posso ser diretora.

Nos J.O de Tóquio 2020 o surfe será esporte olímpico pela primeira vez. Quais são as suas expectativas? Você se vê competindo e lutando pelas medalhas?

Para nós que competimos, mudou a maneira de poder praticar este esporte ao termos outras ajudas, eu estou muito agradecida pelo surfe ser olímpico. Eu nunca tinha pensado, que sendo surfista, eu poderia ir aos Jogos. O Campeonato do Mundo decidirá quem irá o Tóquio, por isso os Jogos são algo que nem existem no dia de hoje. Se eu finalmente me classificar, comemorarei e preparei a seguinte fase. Em termos de longo prazo, quando o tempo passar e tudo estiver calmo, eu gostaria de poder dizer: fiz tudo que estava nas minhas mãos e tive um compromisso com meu trabalho.