Entrevista com José Manuel Guerrero Acosta ('Revelando Memórias')

“Os milhões de hispânicos que vivem atualmente nos Estados Unidos têm direito a que se reconheça que o mundo hispânico esteve presente de forma destacada no nascimento de seu país”

Arte

A Espanha e o mundo hispânico desempenharam um papel decisivo na independência dos Estados Unidos da América. Porém, este fato é muito pouco conhecido e, historicamente, essa contribuição quase não foi reivindicada. Por isso, a Iberdrola promove 'Revelando Memórias' ('Unveiling Memories'), um projeto dirigido pelo historiador e especialista nessa matéria José Manuel Guerrero Acosta. Conversamos com ele sobre a importância de resgatar essa história compartilhada entre hispânicos e americanos.

 Publicação: Julho de 2021 / Atualização: Setembro de 2026    Tempo de leitura: 3 minutos

Esta entrevista, publicada originalmente em 2021, é atualizada como parte do projeto 'Revelando Memórias', uma iniciativa de longo alcance que continua ampliando recursos, pesquisas e ações de divulgação sobre a contribuição da Espanha e do mundo hispânico para a independência dos Estados Unidos.

 

Destaques da entrevista e do projeto 'Revelando Memórias':

  • Uma história pouco conhecida durante anos: a contribuição da Espanha e do mundo hispânico para a independência dos Estados Unidos quase não foi reivindicada durante décadas.
  • Uma ajuda decisiva: a Espanha forneceu armas, suprimentos, dinheiro e tropas e combateu a Grã-Bretanha em diferentes cenários.
  • Uma memória com vestígios nos Estados Unidos: documentos, monumentos e lugares históricos conservam marcas dessa participação, embora muitos ainda sejam pouco conhecidos.
  • Um projeto para deixar um legado: Revelando Memórias busca ampliar a presença dessa história em museus e lugares históricos dos Estados Unidos.
  • Cultura e instituições para recuperar a memória: Guerrero Acosta destaca a colaboração entre pesquisadores, instituições e empresas como a Iberdrola para tornar visível esse legado.

José Manuel Guerrero Acosta é historiador, acadêmico da Academia de Ciências e Artes Militares da Espanha e especialista em história militar. Formado em Estudos Avançados em História Contemporânea pela UNED (Universidade Nacional de Educação à Distância) e em Direção e Gestão de Museus Militares pelo Ministério de Defesa da Espanha, desenvolveu uma ampla trajetória ligada à pesquisa, à divulgação e à museografia. É autor de mais de 40 artigos e de uma dúzia de livros, além de ter atuado como assessor histórico e curador de exposições na Espanha e nos Estados Unidos.

Guerrero Acosta colabora com a Iberdrola desde 2015 em iniciativas centradas na contribuição da Espanha e do mundo hispânico para a independência dos Estados Unidos. Após participar das exposições Bernardo de Gálvez e a presença da Espanha no México e nos Estados Unidos (2015), 'A Memória Recuperada' (Bilbao, 2017) e 'Recovered Memories' (Nova Orleans e Washington, 2018), dirige o projeto 'Revelando Memórias' ('Unveiling Memories'), que amplia esse trabalho por meio de publicações, recursos digitais e ações destinadas a recuperar e divulgar essa história compartilhada.

Contexto histórico: marcos fundamentais da contribuição da Espanha para a independência dos Estados Unidos

1775: Primeiros suprimentos vindos da Espanha
Antes mesmo de declarar sua independência, os revolucionários norte-americanos receberam armas e outros suprimentos procedentes da Espanha, entre eles os gerenciados pelo comerciante de Bilbao Diego de Gardoqui.

1776: Apoio financeiro e militar encoberto
A Espanha e a França começam a fornecer secretamente dinheiro, armas, pólvora e outros recursos aos revolucionários.

1777: Saratoga muda o rumo da guerra
A vitória norte-americana em Saratoga (estado de Nova York) reforça a causa da independência e favorece a entrada da França na guerra.

1779: A Espanha entra oficialmente na guerra
Com a assinatura do Tratado de Aranjuez, a Espanha declara guerra à Grã-Bretanha e abre uma nova frente no golfo do México e no Caribe.

1781: Yorktown e o papel do apoio financeiro hispânico
As campanhas de Bernardo de Gálvez —governador da Louisiana espanhola e herói da Guerra de Independência dos Estados Unidos— enfraquecem as posições britânicas no sul, em especial na Louisiana e na Flórida, enquanto o apoio financeiro espanhol contribui para a vitória de Yorktown.

2015 – atualidade: recuperar e divulgar a história
A Iberdrola promove projetos culturais para recuperar e divulgar a contribuição espanhola para a independência dos Estados Unidos, desde 'A Memória Recuperada' e 'Recovered Memories' até 'Revelando Memórias'.

Uma história que merece ser recuperada

A contribuição da Espanha e do mundo hispânico para a independência dos Estados Unidos da América é um fato pouco conhecido tanto de um lado quanto de outro do Atlântico. Por que o senhor considera que ocorreu este esquecimento?

Existem várias razões. Uma delas é que grande parte da ajuda econômica e material foi secreta ou feita por diversos canais e intermediários, por isso não podemos saber a quantia exata. Outra razão é que a Espanha se converteu em adversário diante da expansão territorial da nova nação. Mas também porque a Espanha não se empenhou muito em estar presente durante o século XIX devido aos seus próprios problemas internos. Além disso, a contribuição do mundo hispânico não foi valorizada pelos historiadores anglo-saxões.

Por que é importante reivindicar o papel da Espanha nesse acontecimento histórico?

Considero que os milhões de hispânicos que atualmente moram nos Estados Unidos têm direito que o mundo hispânico e seus antepassados, que faziam parte dos territórios da Coroa Espanhola na América, sejam reconhecidos como participantes relevantes do processo de nascimento de seu país.

A ajuda da Espanha à independência dos Estados Unidos

De que forma a Coroa Espanhola ajudou os habitantes das Treze Colônias inglesas a conseguirem sua independência?

Os primeiros rifles estrangeiros que conseguiram para lutar contra as tropas britânicas chegaram em 1775 de Bilbau a Massachussets. Depois continuaram recebendo armas, pólvora, suprimentos diversos, uniformes e dinheiro durante toda a guerra. Além disso, a Espanha e a França lutaram contra a Inglaterra por mar e por terra na Europa e no Atlântico. Mais concretamente, a Espanha enviou a maior expedição que já tinha sido organizado, com mais de 12.000 soldados e mais de 80 barcos para lutar na Flórida, Louisiana e Caribe.

Em sua opinião, a vitória dos rebeldes teria sido possível sem essa ajuda?

Os próprios Pais Fundadores declararam que nunca teria sido possível vencer sem a ajuda estrangeira. Por exemplo, Alexander Hamilton afirmou: "Só nos salvaremos se formos salvos pela França e Espanha".

Estátua de Bernardo de Gálvez na embaixada da Espanha em Washington DC (esquerda). Placa comemorativa de Diego de Gardoqui para Marblehead, Massachussets (direita).
Estátua de Bernardo de Gálvez na embaixada da Espanha em Washington DC (esquerda). Placa comemorativa de Diego de Gardoqui para Marblehead, Massachussets (direita).

Os vestígios da Espanha nos Estados Unidos

Há vestígios nos EUA dessa participação da Espanha e do mundo hispânico?

Evidentemente, restam alguns vestígios, tais como uma abundante documentação na Biblioteca do Congresso e outros recentes como esculturas e lugares memoriais. No entanto, em geral, são pouco visíveis e conhecidos pelo grande público. Estamos trabalhando para que essa presença seja maior em museus e lugares históricos dos Estados Unidos de forma permanente, instalando placas, esculturas e conteúdos sobre a ajuda que foi oferecida.

"Estamos trabalhando para que essa presença seja maior em museus e lugares históricos dos Estados Unidos de forma permanente."

José Manuel Guerrero Acosta

Diretor do projeto 'Revelando Memórias'

Bernardo de Gálvez, protagonista da memória recuperada

O Congresso dos EUA em 2014 concedeu pela primeira vez a cidadania honorária a um espanhol: o herói da independência norte-americana Bernardo de Gálvez. Como era Gálvez? Quais façanhas lhe fizeram merecedor deste reconhecimento?

Gálvez foi um líder carismático, um homem muito importante tanto para a paz quanto para a guerra. Tivemos a sorte de que ele estivesse no lugar certo em um momento decisivo, como governador da Louisiana espanhola em 1776, e se empenhasse em cumprir as ordens do rei de expulsar os britânicos do golfo do México. Ajudou os rebeldes com suprimentos a partir de Nova Orleans e os derrotou ao longo de três anos de campanhas, aliviando a situação do exército de Washington no norte.

Apesar do prestígio dessa nomeação, recebida apenas por sete pessoas no mundo, Bernardo de Gálvez continua sendo bastante desconhecido, inclusive na Espanha. Como seria possível reivindicar sua figura, não só em âmbito internacional, mas também dentro de seu país natal?

Muitos particulares e instituições públicas e privadas estão há anos trabalhando para que seja mais conhecido através de livros, monumentos, redes sociais e exposições, esse é caso do projeto 'Recovered Memories' ('A memória recuperada') da Iberdrola, que foi iniciado em 2015 com uma exposição inaugurada por Sua Majestade, o Rei Felipe.

"Sem o apoio de empresas como a Iberdrola e seu compromisso social e cultural seria muito difícil conseguir esses objetivos tão ambiciosos"

José Manuel Guerrero Acosta

Diretor do projeto 'Revelando Memórias'

Um projeto de longo alcance para transformar a memória em legado

Qual o objetivo do livro 'Revelando Memórias' ('Unveiling Memories')? O que podemos encontrar nele?

Tentamos resumir de forma clara e concisa tudo o que a Espanha e os hispânicos fizeram para ajudar na Independência dos EUA. Além disso, existe um site Link externo, abra em uma nova aba. onde serão expostos os diferentes projetos e atividades relacionados. O objetivo final é que seja uma referência para o conhecimento e a divulgação de tais acontecimentos para o público de ambos os lados do Atlântico. Junto aos fatos destacados, também oferecem biografias de seus protagonistas e dos lugares onde é possível encontrar as marcas da Espanha nessa história comum dos hispânicos e dos EUA.

O senhor colabora com a Iberdrola desde 2015 em várias exposições e em outras ações sobre o papel da Espanha e dos hispânicos na independência dos EUA. De que forma o senhor considera que ambas as iniciativas ajudaram a recuperar essa memória compartilhada entre o mundo hispânico e os EUA? Quais conquistas foram alcançadas?

Embora estejamos com esse projeto há apenas cinco anos, podemos observar que tanto na Espanha quanto nos EUA se multiplicou o interesse e a presença por tudo aquilo que se relacione à Espanha na independência do país em muitos âmbitos culturais e redes sociais. Antes de 2015, praticamente não se falava disso fora de círculos muito minoritários. Acredito sinceramente que o esforço de muitas pessoas e instituições está dando seus frutos, apesar do quão difícil é revelar as memórias de uma história quase esquecida durante tantos anos.

Como o senhor avalia o apoio do grupo Iberdrola à promoção da história em particular e da cultura em geral?

Sem o apoio de empresas como a Iberdrola e seu compromisso social e cultural seria muito difícil conseguir esses objetivos tão ambiciosos, especialmente a médio prazo. Esse apoio é fundamental para conseguir que a imagem da Espanha, e de tudo o que estiver relacionado ao hispânico, esteja bem representada pela importância que tiveram para o nascimento dos EUA. Essas ações também são benéficas para a imagem institucional das empresas espanholas no exterior.