Entrevista com José Manuel Guerrero Acosta ('Revelando Memórias')

'Revelando Memorias' procura ser uma referência para o conhecimento e divulgação nos dois lados do Atlântico

História Arte Entrevistas

 

Abril de 2017.    Tempo de leitura: 3 minutos

A Espanha e o mundo hispânico desempenharam um papel decisivo na independência dos Estados Unidos da América. Porém, este fato é muito pouco conhecido e, historicamente, essa contribuição quase não foi reivindicada. Por isso, a Iberdrola promoveu o Revelando Memórias (Unveiling Memories), um projeto dirigido pelo historiador e especialista nessa matéria José Manuel Guerrero Acosta. Conversamos com ele sobre a importância de resgatar essa história compartilhada entre hispânicos e americanos.

José Manuel Guerrero Acosta é acadêmico da Academia de Ciências e Artes Militares da Espanha. Formado em Estudos Avançados em História Contemporânea da UNED (Universidade Nacional de Educação à Distância) e em Direção e Gestão de Museus Militares do Ministério de Defesa da Espanha. Foi chefe do Projeto Museográfico do novo Museu do Exército em Toledo (2004-2006) e membro do Instituto de História e Cultura Militar da Espanha. É autor de mais de 40 artigos e de uma dúzia de livros. Foi assessor histórico de vários filmes e curador de diversas exposições na Espanha e nos Estados Unidos.

Colabora com a Iberdrola desde 2015 como curador de diferentes exposições sobre a contribuição da Espanha e do mundo hispânico para a independência dos Estados Unidos: Bernardo de Gálvez e a presença da Espanha no México e nos Estados Unidos (2015), A memória recuperada (2017) e Recovered Memories. Spain and the Support for the American Revolution (A Memória Recuperada. A Espanha e seu apoio à Revolução Americana, 2018). Atualmente dirige o projeto Revelando Memórias (Unveiling Memories), um livro e um site com os quais a empresa pretende, em definitivo, que os museus de história dos Estados Unidos deem espaço para tais acontecimentos.

A contribuição da Espanha e do mundo hispânico para a independência dos Estados Unidos da América é um fato pouco conhecido tanto de um lado quanto de outro do Atlântico. Por que o senhor considera que ocorreu este esquecimento?

Existem várias razões. Uma delas é que grande parte da ajuda econômica e material foi secreta ou feita por diversos canais e intermediários, por isso não podemos saber a quantia exata. Outra razão é que a Espanha se converteu em adversário diante da expansão territorial da nova nação. Mas também porque a Espanha não se empenhou muito em estar presente durante o século XIX devido aos seus próprios problemas internos. Além disso, a contribuição do mundo hispânico não foi valorizada pelos historiadores anglo-saxões.

Por que é importante reivindicar o papel da Espanha nesse acontecimento histórico?

Considero que os milhões de hispânicos que atualmente moram nos Estados Unidos têm direito que o mundo hispânico e seus antepassados, que faziam parte dos territórios da Coroa Espanhola na América, sejam reconhecidos como participantes relevantes do processo de nascimento de seu país.

De que forma a Coroa Espanhola ajudou os habitantes das Treze Colônias inglesas a conseguirem sua independência?

Os primeiros rifles estrangeiros que conseguiram para lutar contra as tropas britânicas chegaram em 1775 de Bilbau a Massachussets. Depois continuaram recebendo armas, pólvora, suprimentos diversos, uniformes e dinheiro durante toda a guerra. Além disso, a Espanha e a França lutaram contra a Inglaterra por mar e por terra na Europa e no Atlântico. Mais concretamente, a Espanha enviou a maior expedição que já tinha sido organizado, com mais de 12.000 soldados e mais de 80 barcos para lutar na Flórida, Louisiana e Caribe.

Em sua opinião, a vitória dos rebeldes teria sido possível sem essa ajuda?

Os próprios Pais Fundadores declararam que nunca teria sido possível vencer sem a ajuda estrangeira. Por exemplo, Alexander Hamilton afirmou: "Só nos salvaremos se formos salvos pela França e Espanha".

Há vestígios nos Estados Unidos dessa participação da Espanha e do mundo hispânico?

Evidentemente, restam alguns vestígios, tais como uma abundante documentação na Biblioteca do Congresso e outros recentes como esculturas e lugares memoriais. No entanto, em geral, são pouco visíveis e conhecidos pelo grande público. Estamos trabalhando para que essa presença seja maior em museus e lugares históricos dos Estados Unidos de forma permanente, instalando placas, esculturas e conteúdos sobre a ajuda que foi oferecida.

Estátua de Bernardo de Gálvez na embaixada da Espanha em Washington DC (esquerda). Placa comemorativa de Diego de Gardoqui para Marblehead, Massachussets (direita).
Estátua de Bernardo de Gálvez na embaixada da Espanha em Washington DC (esquerda). Placa comemorativa de Diego de Gardoqui para Marblehead, Massachussets (direita).

O Congresso dos Estados Unidos em 2014 concedeu pela primeira vez a cidadania honorária a um espanhol: o herói da independência norte-americana Bernardo de Gálvez. Como era Gálvez? Quais façanhas lhe fizeram merecedor deste reconhecimento?

Gálvez foi um líder carismático, um homem muito importante tanto para a paz quanto para a guerra. Tivemos a sorte de que ele estivesse no lugar certo em um momento decisivo, como governador da Louisiana espanhola em 1776, e se empenhasse em cumprir as ordens do rei de expulsar os britânicos do golfo do México. Ajudou os rebeldes com suprimentos a partir de Nova Orleans e os derrotou ao longo de três anos de campanhas, aliviando a situação do exército de Washington no norte.

Apesar do prestígio dessa nomeação, recebida apenas por sete pessoas no mundo, Bernardo de Gálvez continua sendo bastante desconhecido, inclusive na Espanha. Como seria possível reivindicar sua figura, não só em âmbito internacional, mas também dentro de seu país natal?

Muitos particulares e instituições públicas e privadas estão há anos trabalhando para que seja mais conhecido através de livros, monumentos, redes sociais e exposições, esse é caso do projeto Recovered Memories (A memória recuperada) da Iberdrola, que foi iniciado em 2015 com uma exposição inaugurada por Sua Majestade, o Rei Felipe.

Sem o apoio de empresas como a Iberdrola e seu compromisso social e cultural seria muito difícil conseguir esses objetivos tão ambiciosos

Qual o objetivo do livro Revelando Memórias (Unveiling Memories)? O que podemos encontrar nele?

Tentamos resumir de forma clara e concisa tudo o que a Espanha e os hispânicos fizeram para ajudar na Independência dos Estados Unidos. Além disso, existe um site Link externo, abra em uma nova aba. onde serão expostos os diferentes projetos e atividades relacionados. O objetivo final é que seja uma referência para o conhecimento e a divulgação de tais acontecimentos para o público de ambos os lados do Atlântico. Junto aos fatos destacados, também oferecem biografias de seus protagonistas e dos lugares onde é possível encontrar as marcas da Espanha nessa história comum dos hispânicos e dos Estados Unidos.

O senhor tem colaborado com a Iberdrola desde 2015 em várias exposições e em outras ações sobre o papel da Espanha e dos hispânicos na independência dos Estados Unidos. De que forma o senhor considera que ambas as iniciativas ajudaram a recuperar essa memória compartilhada entre o mundo hispânico e os Estados Unidos? Quais conquistas foram alcançadas?

Embora estejamos com esse projeto há apenas cinco anos, podemos observar que tanto na Espanha quanto nos Estados Unidos se multiplicou o interesse e a presença por tudo aquilo que se relacione à Espanha na independência do país em muitos âmbitos culturais e redes sociais. Antes de 2015, praticamente não se falava disso fora de círculos muito minoritários. Acredito sinceramente que o esforço de muitas pessoas e instituições está dando seus frutos, apesar do quão difícil é revelar as memórias de uma história quase esquecida durante tantos anos.

Como o senhor avalia o apoio do grupo Iberdrola à promoção da história em particular e da cultura em geral?

Sem o apoio de empresas como a Iberdrola e seu compromisso social e cultural seria muito difícil conseguir esses objetivos tão ambiciosos, especialmente a médio prazo. Esse apoio é fundamental para conseguir que a imagem da Espanha, e de tudo o que estiver relacionado ao hispânico, esteja bem representada pela importância que tiveram para o nascimento dos Estados Unidos. Essas ações também são benéficas para a imagem institucional das empresas espanholas no exterior.