‘Smart contracts’

‘Smart contracts’: acordos digitais que impulsionam um modelo energético mais inteligente e sustentável

Redes elétricas Energias renováveis

À medida que os sistemas elétricos se tornam mais descentralizados, digitais e interconectados, a capacidade de automatizar acordos de forma segura e em tempo real ganha cada vez mais importância. Nesse contexto, os smart contracts (contratos inteligentes) – acordos digitais autoexecutáveis impulsionados pela tecnologia blockchain – estão surgindo como uma ferramenta valiosa para melhorar a eficiência, a transparência e a confiança em toda a cadeia de valor da energia.

Os contratos inteligentes prometem reforçar a confiança, a segurança e a transparência entre as partes.
Os contratos inteligentes prometem reforçar a confiança, a segurança e a transparência entre as partes.

Originalmente associados às criptomoedas e às transações financeiras, os smart contracts já estão sendo explorados em setores como logística, manufatura, saúde e, cada vez mais, energia. Para empresas como a Iberdrola, que está acelerando a eletrificação da economia por meio de investimentos em energias renováveis, redes elétricas e digitalização, essas tecnologias abrem novas oportunidades para otimizar processos, automatizar operações e promover um sistema energético mais limpo e flexível.

O que é um smart contract?

Um smart contract, ou contrato inteligente, é um acordo escrito em código de computador que é executado automaticamente quando determinadas condições previamente definidas são cumpridas. O conceito foi introduzido em meados da década de 1990 por Nick Szabo, cientista da computação, jurista e criptógrafo, que descreveu os smart contracts como protocolos digitais capazes de fazer cumprir os termos de um acordo sem a necessidade de intervenção manual.

Ao contrário dos contratos tradicionais, os smart contracts geralmente são implementados em blockchain, um livro-razão digital distribuído que armazena transações de forma segura, transparente e imutável. Uma vez implementadas, as condições programadas no contrato não podem ser modificadas sem o consenso da rede, o que reduz o risco de manipulação ou erro. Quando as condições estabelecidas são cumpridas, o contrato é executado automaticamente.

Em 2014, Vitalik Buterin, cofundador da plataforma descentralizada de blockchain e desenvolvimento Ethereum, explicou em uma conferência como funcionam os smart contracts. “Os contratos são traduzidos para linguagem de computador e armazenados em blocos. As partes dos contratos, que são copiadas em livros-razão distribuídos, permanecem totalmente criptografadas e distribuídas. O fragmento de código é preparado com tarefas e detalhes específicos (prazo, o que vai para onde, de onde para onde, etc.). Quando as condições especificadas são cumpridas, ele executa a transação e, se os requisitos necessários forem atendidos, a operação é concluída com sucesso ou cancelada antes de ser finalizada.”

Hoje, plataformas como a Ethereum tornaram possível o desenvolvimento de smart contracts cada vez mais sofisticados, capazes de automatizar desde liquidações financeiras até processos industriais. Impulsionados por essa tecnologia em rápida evolução, eles já estão se expandindo para setores como o imobiliário, de saúde,de meios de comunicação, de finanças, da administração pública e, é claro, o setor energético.

Por que os smart contracts são importantes agora? 

A transformação do sistema energético está acelerando a necessidade de automatizar processos, trocar dados de forma segura e gerenciar um número cada vez maior de ativos conectados em tempo real.

A expansão das energias renováveis, o crescimento dos veículos elétricos, a digitalização das redes elétricas e a incorporação de milhões de sensores, medidores inteligentes e sistemas de armazenamento estão gerando volumes de informação sem precedentes.

Nesse novo ambiente energético, mais descentralizado, dinâmico e interconectado, tecnologias como os smart contracts podem ajudar a automatizar acordos, validar eventos operacionais, melhorar a rastreabilidade e executar transações de forma segura e eficiente, sem depender de processos manuais.

 Como funciona um smart contract

Embora cada aplicação seja diferente, o funcionamento de um smart contract geralmente segue um processo simples:

  1. Definição do acordo. As partes definem as regras, condições e ações que serão executadas automaticamente.
  2. Programação. Essas condições são traduzidas em código e implantadas em uma rede blockchain.
  3. Verificação de dados. O sistema recebe informações de plataformas conectadas, sensores ou fontes externas de dados.
  4. Execução automática. Quando as condições predefinidas são atendidas, seguindo instruções do tipo “se/quando… então…”, o smart contract é executado automaticamente.
  5. Registro permanente. A transação é validada pela rede e registrada de forma permanente.

O que é necessário para que funcionem?

Embora os smart contracts possam automatizar acordos e transações, seu funcionamento depende de vários elementos tecnológicos e operacionais que devem estar corretamente integrados:

Dados confiáveis

Os contratos inteligentes só podem executar decisões com base nas informações que recebem; portanto, a qualidade, a precisão e a disponibilidade dos dados são essenciais.

Sensores e dispositivos conectados

Tecnologias como a Internet das Coisas (IoT), medidores inteligentes ou sistemas industriais conectados permitem capturar eventos físicos e transferi-los para o ambiente digital.

Regras claramente definidas

As condições que ativam o contrato devem ser previamente acordadas, mensuráveis e traduzíveis em código de computador.

Segurança cibernética e gestão de identidades

Proteger dados, comunicações e acessos é essencial em ecossistemas altamente conectados.

Integração com sistemas existentes

Para operar em escala, os contratos inteligentes devem se conectar a plataformas empresariais, sistemas de faturamento, mercados de energia e ferramentas operacionais.

Marco regulatório e padrões comuns

Em setores regulados, como o energético, a interoperabilidade e a evolução normativa são fatores-chave para facilitar sua adoção.

 Contrato tradicional versus smart contract

Tanto os contratos tradicionais quanto os smart contracts visam formalizar acordos entre as partes. No entanto, seu funcionamento pode ser muito diferente. Enquanto os contratos tradicionais geralmente dependem de processos administrativos, validações manuais e intermediários, os smart contracts incorporam regras programadas capazes de serem executadas automaticamente quando determinadas condições são atendidas. A comparação a seguir resume algumas de suas principais diferenças:

Variável Contrato tradicional ‘Smart contract’
Execução Manual ou semiautomática Automática
Intermediação Normalmente necessária Pode ser reduzida
Velocidade Depende de validações e processos administrativos Em tempo real ou quase instantânea
Rastreabilidade Fragmentada ou distribuída entre sistemas Registro compartilhado e imutável
Automação Limitada Programável
Modificação Por meio de revisão contratual Requer atualização do código e consenso
Transparência Variável de acordo com as partes Compartilhada entre participantes autorizados
Dependência dos dados Moderada Alta

Benefícios dos smart contracts

  • Execução mais rápida e eficiente

    Assim que as condições predefinidas são cumpridas, os smart contracts são executados automaticamente, eliminando a documentação em papel, reduzindo a intervenção manual e minimizando atrasos.

  • Maior confiança e transparência

    Todos os participantes têm acesso ao mesmo registro compartilhado e à prova de manipulação, criando uma fonte única de informação sem depender de intermediários.

  • Maior segurança

    Baseados na tecnologia blockchain, os smart contracts utilizam registros criptografados e descentralizados, feitos para dificultar alterações ou acessos não autorizados.

  • Redução de custos

    Ao automatizar processos e eliminar intermediários, os smart contracts podem reduzir custos administrativos, comissões de transação e ineficiências operacionais.

Aplicações atuais dos smart contracts

Embora os smart contracts continuem evoluindo, eles são usados atualmente em diversos setores para automatizar processos, validar transações e melhorar a rastreabilidade das informações. Alguns de seus usos mais comuns são:

  • Finanças descentralizadas (DeFi). Plataformas baseadas em blockchain utilizam smart contracts para executar empréstimos, pagamentos, trocas de ativos digitais ou geração de juros de forma automática, sem a necessidade de intermediários financeiros.
  • Pagamentos e liquidações automáticas. Empresas e plataformas digitais utilizam smart contracts para liberar pagamentos automaticamente quando determinadas condições são cumpridas, como a entrega de um produto ou a prestação de um serviço.
  • Seguros paramétricos. Em determinados seguros, os smart contracts podem ativar indenizações automáticas quando ocorre um evento específico, como atrasos em voos, condições meteorológicas extremas ou incidentes logísticos.
  • Cadeias de suprimentos e rastreabilidade. Fabricantes, operadores logísticos e distribuidores utilizam smart contracts para verificar a origem das matérias-primas, registrar movimentos de mercadorias e validar certificações ao longo de toda a cadeia de suprimentos.
  • Compra e venda de imóveis. Algumas plataformas estão utilizando smart contracts para automatizar pagamentos, transferências de propriedade e verificação de documentos em transações imobiliárias.

Por que os smart contracts são importantes para o setor energético? 

O setor energético está cada vez mais descentralizado, impulsionado por dados e interconectado. Milhões de dispositivos conectados, medidores inteligentes, ativos renováveis e veículos elétricos geram continuamente informações que devem ser processadas de forma segura e eficiente. Os smart contracts podem ajudar a automatizar esse ecossistema.

Redes elétricas mais inteligentes 

As redes elétricas digitais geram enormes volumes de dados operacionais em tempo real. Os smart contracts podem ajudar a automatizar acordos entre operadores de rede, validar eventos operacionais e ativar respostas predefinidas em redes inteligentes.

Uma rede elétrica conectada a milhares de ativos, como parques eólicos, baterias de armazenamento ou usinas solares, poderia utilizar smart contracts para validar automaticamente os dados operacionais desses ativos e executar ações predefinidas em tempo real. Se uma instalação de armazenamento com baterias injetar 50 MW na rede durante um evento de frequência, por exemplo, um contrato inteligente poderia verificar instantaneamente a entrega, calcular a remuneração com base nas condições de mercado e ativar o pagamento, tudo isso sem intervenção manual.

Além disso, quando combinados com tecnologias como a Internet das Coisas (IoT) e a inteligência artificial, os smart contracts podem contribuir para uma gestão de rede mais resiliente, eficiente e flexível.

Por exemplo, um contrato inteligentepoderia ser utilizado em sistemas de troca de energia entre particulares (negociação ponto a ponto): uma residência poderia vender automaticamente o excedente de energia solar a um vizinho quando o preço for favorável ou desviar essa energia para uma bateria comunitária.

Da mesma forma, ao se conectarem a medidores inteligentes habilitados para IoT, os smart contracts podem verificar a produção e o consumo em tempo real, calculando e executando pagamentos instantaneamente.

Graças à sua natureza automatizada, é possível reduzir os intermediários e minimizar as intervenções manuais.

Certificação de energia renovável 

À medida que consumidores e empresas exigem maior transparência sobre a origem da eletricidade que consomem, os smart contracts podem ajudar a certificar em tempo real a proveniência da energia renovável.

Em 2019, a Iberdrola realizou um teste piloto baseado em blockchain que permitiu aos clientes rastrear a eletricidade renovável desde sua fonte de geração até o ponto de consumo, reforçando a transparência nas garantias de origem.

No futuro, os smart contracts também poderão automatizar as liquidações entre produtores, consumidores e sistemas de armazenamento dentro de ecossistemas energéticos cada vez mais descentralizados.

Contrato de compra e venda de energia (PPA)

Os Contratos de compra e venda de energia (PPA) são contratos de longo prazo entre geradores de eletricidade e compradores, normalmente empresas de serviços públicos ou grandes consumidores corporativos. Eles definem o preço, o volume e a duração do fornecimento de energia elétrica, frequentemente por períodos de cinco a 20 anos, e são amplamente utilizados para apoiar o financiamento e a implantação de projetos de energia renovável.

Ao proporcionar preços fixos para os compradores e estabilidade de receita para os produtores, os PPAs se tornaram um pilar da transição energética. No entanto, sua crescente complexidade — impulsionada por estruturas multipartidas, marcos regulatórios em evolução e o papel cada vez mais relevante dos sistemas de certificação de energias renováveis — também fez com que se tornassem acordos mais intensivos em dados e mais exigentes do ponto de vista operacional.

No contexto dos PPAs, os smart contracts podem codificar termos contratuais,como volumes de geração, limites de preço e regras de liquidação, diretamente no software. Isso permite passar de processos manuais, com múltiplos intermediários, para uma execução automatizada.

Por exemplo, ao receber dados verificados de produção de energia, um smart contract pode ativar automaticamente os fluxos de pagamento entre o comprador e o gerador, sem a necessidade de faturamento manual ou reconciliação. Isso reduz os custos administrativos e acelera os ciclos de liquidação, ao mesmo tempo em que melhora a precisão e a rastreabilidade.

Mobilidade elétrica 

O crescimento da mobilidade elétrica está gerando novas relações digitais entre motoristas, operadores de recarga, fornecedores de energia e plataformas de pagamento.

Nesse contexto, os smart contracts podem automatizar:

  • A autenticação de usuários
  • A verificação das sessões de recarga
  • A faturação e a validação de pagamentos em tempo real
  • A liquidação entre operadores
  • A interoperabilidade entre redes de recarga

Essas capacidades podem simplificar a experiência de recarga, ao mesmo tempo em que apoiam a eletrificação do transporte em grande escala.

Cadeias de suprimento de energia 

De componentes de turbinas eólicas a equipamentos de subestações, a infraestrutura energética depende de complexas cadeias de suprimentos globais.

Combinando blockchain, sensores conectados e smart contracts, as empresas podem melhorar:

  • A rastreabilidade de ativos
  • Os registros de manutenção
  • A certificação de equipamentos
  • A gestão do ciclo de vida
  • A transparência dos fornecedores

Isso pode reforçar a confiabilidade operacional e favorecer processos de abastecimento mais sustentáveis.

Como a Iberdrola explora os acordos digitais?

Na Iberdrola, a exploração de tecnologias como blockchain, inteligência artificial, infraestruturas conectadas e automação faz parte de uma estratégia mais ampla de transformação digital projetada para acelerar a eletrificação e promover um modelo energético mais sustentável.

Como parte do Plano Estratégico 2025-2028, a Iberdrola está realizando importantes investimentos em redes elétricas, energias renováveis e tecnologias digitais para melhorar a eficiência operacional, reforçar a resiliência do sistema e oferecer serviços mais inteligentes aos clientes.

Nesse contexto, os smart contracts ajudam a automatizar determinados processos, melhorar a rastreabilidade e facilitar interações mais rápidas e seguras em toda a cadeia de valor energética.

Limites e falsas expectativas

Embora os smart contracts ofereçam um grande potencial, eles não são uma solução universal nem substituem automaticamente todos os processos tradicionais.

Nem todos os acordos podem ser totalmente traduzidos em código, especialmente aqueles que exigem interpretação jurídica, negociação entre as partes ou supervisão humana.

Além disso, os smart contracts dependem da qualidade das informações externas que recebem. Se os dados provenientes de sensores, plataformas ou sistemas conectados estiverem incorretos ou incompletos, a execução automática pode gerar resultados indesejados.

Nem todos os processos empresariais se beneficiam necessariamente da automação baseada em blockchain. Em muitos casos, sua adoção só agrega valor quando há um alto volume de transações, múltiplos participantes ou uma necessidade clara de rastreabilidade e confiança compartilhada.

Smart contracts: desafios futuros 

Apesar de seu enorme potencial, os smart contracts ainda enfrentam vários desafios antes de poderem ser implantados em grande escala em ambientes industriais complexos. Um dos principais é a integração com as infraestruturas existentes. Muitos sistemas energéticos, industriais e comerciais foram projetados muito antes do surgimento da automação baseada em blockchain, de modo que conectar plataformas legadas a novas arquiteturas digitais pode exigir investimentos significativos, adaptação técnica e padronização.

A qualidade dos dados é outro fator crítico. Os smart contracts só podem ser executados com base nas informações que recebem; portanto, dados imprecisos, incompletos ou desatualizados provenientes de sensores, medidores ou outras fontes externas podem gerar resultados incorretos.

À medida que os dispositivos conectados e as plataformas digitais se disseminam, a segurança cibernética também ganha importância. Proteger infraestruturas, comunicações e identidades digitais é essencial em ecossistemas altamente interconectados, onde decisões automatizadas podem acionar transações financeiras ou ações operacionais.

A regulamentação apresenta outro desafio. Embora o reconhecimento legal dos smart contracts continue evoluindo, sua validade jurídica, aplicabilidade e padrões técnicos ainda variam entre jurisdições, especialmente em setores altamente regulamentados, como o de energia.

Ao mesmo tempo, a escalabilidade continua sendo uma consideração técnica fundamental. Os sistemas elétricos do futuro envolverão milhões de ativos conectados, desde instalações de geração renovável e sistemas de armazenamento com baterias até veículos elétricos, medidores inteligentes e recursos de demanda flexível, o que gera enormes volumes de dados e transações que as plataformas digitais deverão processar de forma eficiente, segura e em tempo real.

À medida que os sistemas elétricos se tornam mais inteligentes, limpos e descentralizados, os smart contracts poderão desempenhar um papel cada vez mais importante na automação da confiança, na melhoria da rastreabilidade e no impulso à transição energética. Para empresas como a Iberdrola, eles representam mais um passo em direção a um futuro energético mais conectado, transparente e sustentável.