Usinas virtuais de energia (VPP)

O que é uma usina virtual de energia (VPP) e como ela funciona?

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Uma usina virtual de energia (VPP) é uma plataforma digital que coordena recursos energéticos distribuídos, como baterias, veículos elétricos, instalações renováveis ou consumos flexíveis, para que, de forma agregada, possam proporcionar flexibilidade ao sistema elétrico, de acordo com as necessidades da rede, do mercado e do marco regulatório aplicável.

A crescente eletrificação da economia e o avanço das energias renováveis estão transformando a operação do sistema elétrico. Nesse contexto, é cada vez mais importante contar com soluções capazes de coordenar recursos distribuídos, localizados em residências, empresas e instalações industriais, para que possam contribuir, de forma agregada, para o equilíbrio entre geração e demanda e para um uso mais eficiente da rede.

As usinas elétricas virtuais (ou VPP, sigla em inglês para Virtual Power Plants) permitem agrupar e gerenciar digitalmente recursos de geração distribuída, armazenamento e demanda flexível, como instalações solares, baterias, veículos elétricos, sistemas de climatização ou processos industriais, para que possam responder de forma coordenada a sinais do sistema elétrico, do mercado ou da rede de distribuição. 

Recursos energéticos distribuídos: a base das VPPs

Esses ativos energéticos, conhecidos como recursos energéticos distribuídos (ou DER, em sua sigla em inglês), são instalações de pequena escala que produzem, armazenam ou gerenciam o consumo de energia elétrica próximo ao local onde ela é utilizada. Tradicionalmente, a maioria funcionava de forma isolada, como parte de sistemas individuais de autoconsumo. No entanto, por meio de plataformas digitais de gestão, comunicações em tempo real, redes inteligentes, sensores conectados e algoritmos de otimização, uma usina elétrica virtual pode coordená-los para que atuem em conjunto de acordo com as necessidades do sistema elétrico e as condições do mercado. 

A função de uma VPP não é permitir o livre intercâmbio de energia entre usuários, mas sim coordenar recursos distribuídos para gerenciar quando consumir, deslocar a demanda, armazenar energia ou injetá-la na rede, sempre em conformidade com o marco regulatório aplicável. Sua principal contribuição é a flexibilidade agregada: uma capacidade fundamental para melhorar a operação do sistema elétrico, integrar mais energias renováveis e atender às necessidades da rede de forma mais eficiente. 

Entre os recursos que uma VPP pode integrar estão: 

  • Instalações solares fotovoltaicas

    em residências, empresas e instalações industriais. 

  • Baterias de armazenamento

    que podem ser carregadas e descarregadas conforme a necessidade. 

  • Outros recursos renováveis distribuídos

    que possam ser monitorados e gerenciados de forma coordenada. 

  • Veículos elétricos

    conectados a sistemas de recarga inteligente. 

  • Consumos flexíveis

    equipamentos que podem modificar, modular ou reduzir temporariamente seu consumo, como sistemas de climatização ou determinados processos industriais. 

Quando o sistema elétrico requer flexibilidade, a plataforma pode ativar diferentes respostas: descarregar baterias, modular a recarga de veículos elétricos, ajustar consumos flexíveis ou gerenciar a operação de determinados recursos. Dessa forma, ativos fisicamente separados podem atuar de maneira coordenada como uma capacidade flexível agregada a serviço do sistema. 

Diferenças entre uma usina elétrica virtual e uma usina elétrica tradicional

Uma usina elétrica tradicional é uma instalação física de grande escala em que a geração de eletricidade se concentra em um único ponto e, posteriormente, é distribuída aos consumidores. Esse modelo se baseia em uma gestão centralizada e depende de grandes infraestruturas de produção e trasmissão de energia elétrica

Por outro lado, uma usina elétrica virtual (VPP) é uma plataforma digital que coordena múltiplos recursos energéticos distribuídos, como instalações renováveis, baterias ou consumos flexíveis. Por meio de tecnologias avançadas de comunicação e gestão, esses ativos podem operar de forma agregada, proporcionando maior flexibilidade ao sistema elétrico e facilitando a integração de energias renováveis

Evolução das usinas virtuais de energia: da geração centralizada ao sistema energético inteligente

Durante grande parte do século XX, o sistema elétrico foi projetado em torno de grandes usinas de geração capazes de abastecer amplas áreas geográficas. Esse modelo se mostrou muito eficiente enquanto a produção estava concentrada em poucas instalações.  

No entanto, o crescimento das energias renováveis, a digitalização das redes elétricas e a progressiva eletrificação de setores como o transporte, a indústria ou os edifícios impulsionaram a transição para modelos energéticos mais distribuídos, flexíveis e participativos. Nesse novo cenário, marcado também pela necessidade de descarbonizar a economia e reduzir as emissões, as usinas virtuais permitem coordenar e gerenciar de forma inteligente um número crescente de recursos conectados à rede. 

As VPPs representam uma etapa avançada dessa transformação, ao integrarem diversos recursos energéticos distribuídos e permitirem que consumidores, empresas e instalações conectadas contribuam com flexibilidade por meio de seus ativos e consumos. Essa evolução promove um sistema energético mais eficiente, sustentável e resiliente, mais bem adaptado a uma sociedade cada vez mais eletrificada e digitalizada. As VPPs não substituem as infraestruturas convencionais de geração e rede, mas sim as complementam, proporcionando novas capacidades de gestão e resposta. 

Os principais componentes de uma usina virtual de energia

As usinas virtuais de energia transformam múltiplas instalações independentes e tecnologias digitais em um sistema energético coordenado, flexível e inteligente para gerenciar a geração, o armazenamento e o consumo de energia. Seus principais componentes são: 

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Recursos energéticos distribuídos

Os recursos energéticos distribuídos, ou DER, são a base das usinas virtuais de energia. Incluem instalações solares fotovoltaicas, baterias, veículos elétricos V2G (vehicle to grid) e consumos flexíveis, como a recarga de veículos elétricos, sistemas de climatização ou determinados processos industriais. Embora estejam localizados em pontos diferentes e pertençam a usuários distintos, a VPP os agrupa e coordena para aproveitar sua capacidade conjunta de flexibilidade dentro dos mecanismos técnicos e regulatórios aplicáveis. 

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Infraestrutura tecnológica: Smart Grid e IoT

As redes elétricas inteligentes (smart grids) e a Internet das Coisas (IoT) permitem a comunicação entre os diversos recursos conectados. Graças a sensores, medidores inteligentes e sistemas de transmissão de dados, a VPP pode conhecer em tempo real o estado de cada ativo e adaptar seu funcionamento de acordo com as necessidades do sistema elétrico

recursos distribuidos recursos distribuidos

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Sistemas de controle e gestão

O sistema de controle atua como o cérebro da central elétrica virtual. Por meio de plataformas digitais e algoritmos de otimização, ele analisa as informações disponíveis e determina como gerenciar os recursos: quando armazenar energia, quando consumi-la, quando injetá-la na rede ou quando modular determinados consumos para maximizar a eficiência do conjunto e atender às necessidades do sistema.

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Inversores solares inteligentes

Os inversores solares inteligentes são especialmente relevantes nas VPPs com geração fotovoltaica. Além de converter a energia produzida pelos painéis solares, eles permitem a comunicação com a plataforma de gestão, facilitando o controle da produção, a integração com baterias e a participação em serviços de apoio à rede elétrica.

Como funcionam as usinas virtuais de energia?

O funcionamento das VPPs pode ser explicado em quatro etapas: 

1. Processo de agregação de ativos distribuídos 

A primeira etapa consiste em agrupar diferentes recursos energéticos distribuídos, como baterias, veículos elétricos, instalações solares de autoconsumo fotovoltaico ou consumos flexíveis localizados em residências, empresas e instalações industriais. Embora esses ativos permaneçam fisicamente separados, a VPP os integra e gerencia como um conjunto capaz de proporcionar flexibilidade conforme a necessidade do sistema elétrico. 

2. Monitoramento e controle em tempo real 

Uma vez agregados, a VPP monitora continuamente o estado de todos os recursos conectados. Medidores inteligentes, sensores e dispositivos de comunicação enviam informações em tempo real para a plataforma digital sobre variáveis como produção, consumo, nível de carga das baterias ou demanda elétrica, o que permite saber a qualquer momento a disponibilidade de cada ativo. 

3. Otimização e despacho de energia 

Com todas essas informações, a plataforma utiliza algoritmos de otimização para decidir como empregar os recursos disponíveis da maneira mais eficiente. Dependendo da demanda, da produção renovável, dos preços da eletricidade ou dos sinais da rede, ela pode decidir quando armazenar energia, quando injetá-la na rede ou quando modular determinados consumos para contribuir para o equilíbrio do sistema ou aliviar congestionamentos locais,     sempre que as condições técnicas e regulatórias permitirem. 

4. Interação com a rede elétrica  

As usinas elétricas virtuais não operam de forma isolada, mas sim integradas ao sistema elétrico. Graças a essa coordenação, elas podem contribuir para o equilíbrio do sistema, facilitar a integração de energias renováveis e, quando o marco técnico e regulatório permitir, prestar serviços de flexibilidade à rede de distribuição para gerenciar congestionamentos ou necessidades locais. 

Quais são os benefícios das usinas virtuais de energia?

As usinas virtuais de energia agregam valor ao sistema elétrico ao coordenar recursos distribuídos que, individualmente, teriam uma capacidade limitada de resposta. Entre seus principais benefícios, podemos destacar: 

  • Maior flexibilidade e estabilidade do sistema. Ao coordenar múltiplos recursos distribuídos, as VPPs podem ajudar a equilibrar oferta e demanda e proporcionar capacidade de resposta diante de variações na geração ou no consumo. 
  • Maior integração de energias renováveis. A gestão inteligente do armazenamento e da demanda flexível permite aproveitar melhor a geração solar e eólica, compensar parte de sua variabilidade e facilitar a eletrificação de novos usos energéticos. 
  • Uso eficiente da infraestrutura. Ao otimizar os recursos existentes, as VPPs podem contribuir para reduzir as necessidades de reforço e aproveitar melhor a capacidade disponível nas redes e em outras infraestruturas elétricas. 
  • Novas oportunidades de valor para consumidores e empresas. Os usuários com baterias, veículos elétricos, instalações solares ou consumo flexível podem participar, por meio de mecanismos agregados e regulados, de soluções que colocam sua flexibilidade a serviço do sistema elétrico. 

Quais são os desafios das usinas virtuais de energia?

A implantação de usinas virtuais de energia oferece oportunidades relevantes, embora também apresente desafios técnicos, econômicos e regulatórios que devem ser abordados para facilitar sua implantação em grande escala. 

  • Regulamentação e adaptação dos mercados. A participação de recursos distribuídos e flexíveis nos mercados de energia elétrica e nos serviços de rede requer marcos normativos claros, mecanismos de agregação e regras de operação adaptadas a cada sistema. 
  • Complexidade tecnológica e de gestão. Coordenar milhares de dispositivos em tempo real requer sistemas avançados de controle e comunicação, além de interoperabilidade entre diferentes fabricantes e medidas de segurança cibernética.  
  • Custos iniciais e barreiras ao investimento. A implantação de uma VPP exige investimentos em tecnologia e infraestruturas digitais, o que pode retardar sua adoção caso não haja incentivos ou um marco regulatório favorável. 
  • Disponibilidade e previsão de recursos renováveis. A produção de energia renovável depende de fatores como o sol ou o vento. Por isso, as VPPs precisam de sistemas avançados de previsão e gestão para garantir um fornecimento estável. 

Iberdrola e sua aposta nas usinas virtuais de energia

A Iberdrola promove a eletrificação como um caminho essencial para avançar com a transição energética. Esse processo exige uma gestão cada vez mais flexível, digital e eficiente do sistema elétrico, capaz de integrar volumes crescentes de energias renováveis e responder às novas necessidades de consumo. Nesse contexto, a empresa desenvolve soluções inovadoras de gestão de energia voltadas para aumentar a flexibilidade, a eficiência e a resiliência da rede. 

Nesse contexto, as VPPs se consolidam como uma ferramenta fundamental para agregar e gerenciar a flexibilidade dos recursos distribuídos (geração, armazenamento e demanda) e colocá-la a serviço do sistema elétrico. Seu objetivo é contribuir para o equilíbrio do sistema, facilitar a integração das energias renováveis e habilitar progressivamente serviços de flexibilidade para a rede de distribuição, de acordo com a evolução do marco técnico e regulatório. 

No âmbito residencial, soluções como o Assistente Smart Avançado permitem avançar rumo a uma gestão mais inteligente dos consumos flexíveis, como a recarga de veículos elétricos, a climatização ou outros equipamentos conectados. Essas capacidades digitais são relevantes para o desenvolvimento futuro de modelos de agregação, ao facilitar que pequenos consumos distribuídos possam se adaptar, de forma coordenada, a sinais energéticos ou às necessidades do sistema. 

No âmbito industrial, a Iberdrola também promove a participação de clientes com capacidade de modular seu consumo por meio de mecanismos como o Serviço de Resposta Ativa à Demanda (SRAD). Esse tipo de solução permite valorizar a flexibilidade dos grandes consumidores, contribuindo para o equilíbrio do sistema elétrico e para uma integração mais eficiente das energias renováveis. 

Destaca-se nossa colaboração no projeto europeu Posytyf, que analisa como as energias renováveis, coordenadas por meio de uma usina elétrica virtual, podem contribuir para manter o equilíbrio entre a geração e o consumo de eletricidade, bem como para estabilizar a tensão da rede elétrica. Essa iniciativa impulsionou o desenvolvimento próprio da Iberdrola nessa tecnologia e foi reconhecida com o Prêmio de Excelência da ISGAN (International Smart Grid Action Networks) em 2024.  

Outro exemplo é o projeto FLEXENER, no qual a Iberdrola pesquisou novas tecnologias e modelos de gestão para avançar rumo a um sistema energético mais renovável, flexível e robusto. Em nosso Campus de Inovação e Formação de Madri, o projeto permitiu testar a coordenação de recursos controláveis, como climatização, baterias, geração fotovoltaica e pontos de recarga bidirecionais, e analisar sua capacidade de otimizar o consumo e viabilizar serviços de equilíbrio para o sistema elétrico. Essa experiência contribui para o desenvolvimento das capacidades técnicas necessárias para integrar ativos de clientes em uma VPP. 

A partir dessa experiência, surge também o FLEXIDERMS, voltado para o desenvolvimento de uma plataforma inteligente capaz de coordenar recursos energéticos distribuídos, como painéis solares, baterias, veículos elétricos e consumos flexíveis, para que funcionem de forma agregada. O projeto busca facilitar a participação dos usuários e explorar novas formas de aproveitar e remunerar a flexibilidade que esses recursos podem trazer ao sistema elétrico, sempre dentro do marco regulatório aplicável. 

Usinas elétricas virtuais atualmente em operação

As usinas de geração virtuais já não são uma tecnologia experimental, mas estão entrando em uma fase de adoção comercial e expansão nos mercados de regiões com alta penetração de energias renováveis e marcos regulatórios que permitem a participação de recursos distribuídos.  

Austrália

  • A Austrália é um dos mercados mais avançados, com projetos que conectam milhares de residências equipadas com painéis solares e baterias domésticas para armazenar energia e proporcionar flexibilidade à rede elétrica em momentos de alta demanda. 

Europa

  • A Europa, liderada pela Alemanha, está à frente na implantação dessa tecnologia por meio de plataformas que agregam milhares de instalações renováveis, sistemas de armazenamento e consumidores flexíveis para otimizar sua participação nos mercados de energia elétrica. 

Estados Unidos

  • Nos Estados Unidos, as VPPs estão crescendo especialmente na Califórnia, com programas baseados em baterias domésticas conectadas, para fornecer energia à rede em momentos críticos, juntamente com outros programas que permitem que os usuários recebam incentivos por oferecer flexibilidade energética. 

O futuro das usinas elétricas virtuais

As usinas elétricas virtuais não têm o objetivo nem a capacidade de substituir as usinas elétricas tradicionais, mas estão destinadas a desempenhar um papel cada vez mais relevante em um sistema elétrico mais distribuído, digital e baseado em energias renováveis. 

Nos próximos anos, espera-se que as VPPs evoluam graças a fatores como: 

  • Digitalização por meio da inteligência artificial: algoritmos avançados permitirão prever melhor a geração renovável e o consumo de energia elétrica, além de otimizar a operação das VPPs. 
  • Maior implantação do armazenamento de energia: a redução do custo das baterias permitirá conectar mais residências, empresas e veículos elétricos a sistemas coordenados. 
  • Integração do veículo elétrico: os veículos elétricos poderão oferecer uma capacidade distribuída de flexibilidade e armazenamento por meio a recarga inteligente e, quando a tecnologia e a regulamentação permitirem, por meio de soluções vehicle-to-grid (V2G) capazes de injetar eletricidade na rede. 
  • Participação ativa dos consumidores: os usuários poderão contribuir com flexibilidade por meio de seus ativos e consumos, utilizando mecanismos agregados e regulamentados que reconheçam o valor de sua capacidade de resposta. 
  • Desenvolvimento de padrões de interoperabilidade e cibersegurança: será fundamental garantir que milhões de dispositivos conectados possam se comunicar de forma segura e eficiente. 

À medida que a geração de energia solar e eólica aumenta e a eletrificação da economia avança, gerenciar uma produção e uma demanda mais variáveis será um dos grandes desafios do sistema elétrico. Nesse contexto, as usinas virtuais de energia permitirão coordenar milhares ou, potencialmente, milhões de recursos energéticos distribuídos, proporcionando a flexibilidade necessária para melhorar a estabilidade, a eficiência e a integração das energias renováveis.