ENTREVISTA COM NURIA OLIVER

"As mulheres devem ser uma parte ativa da Quarta Revolução Industrial e da definição da sociedade do futuro"

#Internet #P+D+I #transformação social

Para Nuria Oliver, Data Scientist do Ano para a Big Data Value Association (BDVA) e doutora do MIT pelos seus trabalhos sobre Inteligência Artificial (IA), um dos principais desafios do ser humano passa pela utilização da tecnologia para melhorar a vida das pessoas e envolver as mulheres, por meio do impulso das competências STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) na construção da sociedade do futuro.

Nuria Oliver é engenheira de telecomunicações e doutora em Inteligência Artificial (IA) pelo renomado Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT). Além disso, foi nomeada Data Scientist (Cientista de Dados) do Ano 2019 pela Big Data Value Association (BDVA), organização internacional sem fins lucrativos patrocinada pela indústria com 200 membros em toda a Europa, como reconhecimento pelos seus trabalhos sobre big data social e modelos computacionais de comportamento humano. Seu currículo a torna uma voz autorizada para falar da Quarta Revolução Industrial, da qual devem ser parte e agentes as mulheres, às quais ela encoraja que apostem nas competências STEM.

Em direção a uma Inteligência Artificial por e para a sociedade é o título de uma de suas conferências mais aplaudidas. Qual é a contribuição da IA neste sentido?

A IA está no cerne da Quarta Revolução Industrial em que estamos imersos. Tem um grande poder de transformação pois é transversal, invisível, escalável, atualizável e, além de ter capacidade de explicar o passado ou interpretar o presente, também faz previsões futuras. Ao mesmo tempo, possui outras características que não são tão positivas, por exemplo: cria situações de assimetria — respeito ao acesso aos dados necessários para treinar os algoritmos da IA e respeito à disponibilidade dos meios para poder aproveitá-la — pode ser pirateada e permite gerar conteúdo sintético — texto, vídeo, imagens ou áudio — totalmente indistinguível daquele que é verdadeiro.

Marie Curie dizia que "na vida, não existe nada a temer, mas a entender". Porém, para os neófitos, a IA assusta um pouco, por exemplo em tudo o que estiver relacionado com a robotização do emprego. Qual é a resposta para isso?

Gosto muito de fazer referência a esta citação, pois acho que ela é muito relevante hoje em dia. Apesar da importância extrema da IA nas nossas vidas — desde que nos levantamos até que nos deitamos interagimos com sistemas de IA —, há um desconhecimento significativo e preocupante sobre o assunto na sociedade. É importante que consigamos convencer a cidadania para que se interesse pela IA e para que possa tomar decisões informadas ao respeito. Gosto muito do projeto da Finlândia de educação em IA para a cidadania através do programa on-line chamado Elements of AI.

Além de ter a capacidade de explicar o passado ou interpretar o presente, a Inteligência Artificial também faz previsões futuras

A IA é infinitamente mais poderosa que a inteligência humana em termos de capacidade de computação, velocidade ou armazenamento. Há algo no qual a inteligência humana supere a artificial?

Atualmente, dispomos de sistemas de IA específica, ou seja, capazes de realizar de forma automática e autonomamente um determinado trabalho, mas somente essa tarefa. Por exemplo, mesmo que um algoritmo concebido para jogar xadrez jogue melhor que os humanos, é incapaz de realizar qualquer outra tarefa. De fato, ele também não sabe o que é o xadrez e teria dificuldades para poder jogar se fizéssemos uma variação nas regras do jogo. Os sistemas atuais manifestam um tipo limitado de inteligência, já que são incapazes, entre outras coisas, de generalizar e estender seus níveis de competência numa certa tarefa a outros âmbitos de maneira automática, que é o que um humano faria.

Em que ponto está a interação homem-máquina atualmente? Qual é o futuro que você imagina?

Nos últimos cinco anos, têm acontecido progressos muito importantes. Pela primeira vez, podemos falar com a tecnologia — em nosso celular, carro ou casa — e ela nos escuta, entende e inclusive nos responde. Também estão ocorrendo grandes avanços naquilo que chamamos de interfaces cérebro-máquina que nos permitem, por exemplo, controlar próteses ou cadeiras de rodas com o pensamento. A pretensão da interação pessoa-máquina é conseguir desenvolver sistemas que possam interagir de forma similar como nós — humanos — interagimos entre nós.

Você é especialista em big data para o bem social. Quais são as aplicações neste campo? Poderia ser útil na luta contra as mudanças climáticas?

Há infinitas aplicações em numerosos campos: saúde pública, mudanças climáticas, desastres naturais, crises humanitárias, migrações climáticas, desenvolvimento econômico, cidades inteligentes, transporte, educação, agricultura, etc. Não podemos esquecer que praticamente todos os âmbitos da sociedade estão sendo digitalizados. Uma vez que dispomos de dados, precisamos de técnicas para poder interpretá-los e aproveitá-los para tomar as melhores decisões.

Vendo a sua trajetória, podemos afirmar que você vai um passo adiante. Por exemplo, desde há algum tempo você é data scientist, um dos trabalhos com mais futuro. Em que consiste e que formação é necessária?

Realmente, a Data Science é uma das disciplinas mais demandadas nos dias de hoje. Implica ter conhecimentos de programação, estatística, visualização, matemática, machine learning, etc., para poder desenvolver sistemas capazes de analisar quantidades consideráveis de dados (big data), interpretá-los e fazer algo útil com eles. Já existem universidades que oferecem cursos de Data Science.

Na União Europeia haverá centenas de milhares de novos postos de trabalho tecnológicos que não sabemos como vamos satisfazer

Neste sentido, para onde você acha que vai o emprego do futuro?

Uma das consequências da Quarta Revolução Industrial é a metamorfose do mercado de trabalho. Haverá muitos trabalhos que serão transformados e automatizados. Ao mesmo tempo, aparecerão novos empregos que, em grande parte, terão um componente tecnológico. Na União Europeia (UE), existirão centenas de milhares de novos postos de trabalho tecnológicos que, hoje em dia, não sabemos como vamos satisfazer porque não há suficientes profissionais nem suficientes estudantes de cursos técnicos (STEM). Por isso, eu gostaria de encorajar os mais jovens para que pensem em estudar um curso tecnológico.

O que você diria para provocar neles a vocação pelas disciplinas STEM, especialmente entre as meninas?

O mais importante é estudar aquilo que nos satisfaz, mas para poder tomar uma decisão informada é fundamental conhecer todas as opções. Os cursos tecnológicos são os que têm mais futuro e oportunidades de trabalho, os mais versáteis e os que oferecem maior flexibilidade para poder conciliar, por exemplo, com o trabalho em casa. Infelizmente, a porcentagem de meninas que estudam este tipo de cursos é muito baixa e não podemos permitir, como sociedade, que o futuro não esteja sendo inventado por grupos diversos. Neste caso concreto, não podemos permitir que as mulheres não façam parte ativa da Quarta Revolução Industrial e da definição de sociedade do futuro e do presente.

O seu discurso de entrada na Academia de Engenharia se intitulava Inteligência Artificial: ficção, realidade e sonhos... Entre todas as previsões de futuro que são feitas, qual delas seria um sonho para você?

A previsão mais importante é que, como sociedade, consigamos aproveitar todo o desenvolvimento tecnológico para o progresso, ou seja, para melhorar a qualidade de vida de todas as pessoas do mundo — não só de algumas poucas —, do resto de seres vivos e do nosso planeta. O nosso futuro e sobrevivência dependem disso.